Em breve as coisas voltam ao normal.
domingo, 17 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Avatar X Matrix
Para além dos efeitos, das imagens absolutamente deslumbrantes e do enredo vastamente discutidos pela crítica, a trama de "Avatar", novo filme do diretor James Cameron (Titanic), traz sugestões interessantes. Para melhor elogiá-lo, relacionemos a obra com outro sucesso de ficção científica contemporâneo, a saga "Matrix".
Historicamente, as máquinas são invenções destinadas ao aperfeiçoamento do potencial humano. Em “Matrix”, a relação homem-máquina é conduzida até a dominação dos primeiros pelos últimos. Mais importante que a revolta da tecnologia contra a humanidade naquele filme é a adesão dos computadores às formas humanas tradicionais de dominação. Assim como o homem se define pretensiosamente por oposição aos demais animais e extrai dessa posição (teológica) a justificativa cultural para a exploração desmedida da natureza, em "Matrix" as máquinas repetem este movimento e tentam se apoderar bestialmente da humanidade. "Avatar" propõe uma interrupção nesta lógica.A trama de “Avatar” é simples; com os recursos da Terra esgotados, os humanos tentam colonizar o planeta Pandora para explorar um mineral mais valioso que ouro. Pandora é inóspito para os homens, tem natureza exuberante e é habitado por seres mutantes conhecidos como Navi’s. Um grupo de cientistas humanos cria avatares idênticos aos nativos do planeta desconhecido para tentar estabelecer contato e evitar a colonização pela guerra. Os avatares são corpos desenvolvidos em laboratórios com os quais, por meio de uma espécie de transferência de consciência, os homens conseguem habitar Pandora.
Ao passo que "Matrix" se atém à problemática homem-máquina e transfere para a tecnologia o comportamento humano, "Avatar" apresenta a tríade homem-máquina-natureza para questionar dois elementos ignorados em "Matrix" e pela sociedade; a animalidade humana e comportamento maquinal das pessoas - com a tecnologia funcionando como artifício operador da problematização.Os Navi’s são meio termo entre homem e natureza. Sendo animais, possuem filamentos na ponta dos cabelos que lhes permitem trocar sensações com os seres de outras espécies e até mesmo com os vegetais. Sendo também humanos, possuem linguagem e cultura. Os avatares, por sua vez, são meio termo entre natureza e tecnologia. Embora desenvolvidos por cientistas, possuem todas características dos Navi’s, inclusive os filamentos para se ligar à natureza, e recebém pela transferência de consciência a carga cultural humana.O protagonista do filme, Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-combatente paralítico que reencontra em seu avatar a possibilidade de retomar os movimentos das pernas, perdidos em batalha. A imobilidade do humano e o movimento do avatar são uma metáfora do jogo de estagnação e deslocamento cultural que está no cerne desta obra. Enquanto está entre os humanos, ligado à história que os leva até Pandora, Jake representa a imobilidade na compreensão da vida que temos em "Matrix". Já seu avatar, ao se deslocar pelas florestas de Pandora e na medida em que conhece a cultura mutante nos apresenta uma compreensão da vida que rompe com a anterior.
Acolhido pelos Navi’s, Jake aprende as tradições e hábitos dos nativos, inclusive a usar os filamentos do seu avatar, com o que experimenta sua animalidade soterrada sob o edifício cultural humano. A tomada de consciência do protagonista, por inferência, denúncia o comportamento maquinal e teológico da sociedade, o que fica explícito, por exemplo, no seu aprendizado sobre a relação entre os Navi’s e os animais que os transportam. Ao invés de domesticar as outras espécies, os nativos procuram por um animal que os aceite e que também seja aceito por eles, numa relação genuinamente simbiótica e sustentável, livre de ímpetos dominadores.Se em "Matrix" encontramos a colonização humana por computadores herdeiros do comportamento maquinal da sociedade, com "Avatar" entramos em contato com uma possibilidade de descolonização dos hábitos humanos capaz de redimir nossa relação com natureza. Trata-se da primeira grande ficção científica alinhada aos paradigmas do nosso tempo: a relação com a natureza e a tecnologia. É um filme imperdível!
Ao passo que "Matrix" se atém à problemática homem-máquina e transfere para a tecnologia o comportamento humano, "Avatar" apresenta a tríade homem-máquina-natureza para questionar dois elementos ignorados em "Matrix" e pela sociedade; a animalidade humana e comportamento maquinal das pessoas - com a tecnologia funcionando como artifício operador da problematização.Os Navi’s são meio termo entre homem e natureza. Sendo animais, possuem filamentos na ponta dos cabelos que lhes permitem trocar sensações com os seres de outras espécies e até mesmo com os vegetais. Sendo também humanos, possuem linguagem e cultura. Os avatares, por sua vez, são meio termo entre natureza e tecnologia. Embora desenvolvidos por cientistas, possuem todas características dos Navi’s, inclusive os filamentos para se ligar à natureza, e recebém pela transferência de consciência a carga cultural humana.O protagonista do filme, Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-combatente paralítico que reencontra em seu avatar a possibilidade de retomar os movimentos das pernas, perdidos em batalha. A imobilidade do humano e o movimento do avatar são uma metáfora do jogo de estagnação e deslocamento cultural que está no cerne desta obra. Enquanto está entre os humanos, ligado à história que os leva até Pandora, Jake representa a imobilidade na compreensão da vida que temos em "Matrix". Já seu avatar, ao se deslocar pelas florestas de Pandora e na medida em que conhece a cultura mutante nos apresenta uma compreensão da vida que rompe com a anterior.
Acolhido pelos Navi’s, Jake aprende as tradições e hábitos dos nativos, inclusive a usar os filamentos do seu avatar, com o que experimenta sua animalidade soterrada sob o edifício cultural humano. A tomada de consciência do protagonista, por inferência, denúncia o comportamento maquinal e teológico da sociedade, o que fica explícito, por exemplo, no seu aprendizado sobre a relação entre os Navi’s e os animais que os transportam. Ao invés de domesticar as outras espécies, os nativos procuram por um animal que os aceite e que também seja aceito por eles, numa relação genuinamente simbiótica e sustentável, livre de ímpetos dominadores.Se em "Matrix" encontramos a colonização humana por computadores herdeiros do comportamento maquinal da sociedade, com "Avatar" entramos em contato com uma possibilidade de descolonização dos hábitos humanos capaz de redimir nossa relação com natureza. Trata-se da primeira grande ficção científica alinhada aos paradigmas do nosso tempo: a relação com a natureza e a tecnologia. É um filme imperdível!
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filosofia


